23 de março de 2008

RESENHA – “A CIDADE E AS SERRAS”






“A Cidade e as Serras” é a última grande novela de Eça de Queirós. Foi publicada em 1901, um ano após a morte do autor, tanto que boa parte do livro não foi revista por ele, encarregando-se desse serviço seu amigo Ramalho Ortigão – por isso pode-se perceber uma certa diferença de estilo entre “A Cidade e as Serras” e as outras obras de Eça. Apesar disto, é considerado um dos mais interessantes livros de Eça de Queirós, por trazer marcas muito fortes de seu próprio tempo, mas também por conter um aspecto muito atual: a crítica ao culto da tecnologia.
O livro conta a história de Jacinto de Tormes, um homem extremamente civilizado, que crê só poder ser feliz cercando-se de tecnologia, e que considera a vida no campo medíocre. Seu amigo Zé Fernandes narra sua saga, detalhando a metamorfose de Jacinto, quem, descontente na artificialidade da cidade, resolve trasladar-se ao campo, e lá encontra a verdadeira felicidade. A obra é composta por duas partes: primeiro, a de Jacinto na cidade, de sua crença na realização do homem através da tecnologia até seu tédio e infelicidade diante de tanto materialismo; e a segunda parte narra a chegada de Jacinto às serras portuguesas, sua dificuldade em acostumar-se à vida simples e, enfim, sua felicidade suprema, sua abdicação à vida urbana, aproveitando somente alguns de seus aspectos tecnológicos.
Nota-se a crítica de Eça de Queirós em diversos pontos da obra. Por exemplo, toda a parte inicial é uma espécie de “julgamento hostil” da vida urbana, buscando evidenciar que num espaço extremamente civilizado, como era a Paris daquela época, o homem acaba isolado, pois se rodeia de pessoas superficiais, fúteis; todas as relações baseiam-se em interesses, vive-se em função de mostrar-se adequado à sociedade. Jacinto vivia rodeado por uma galeria de tipos sociais: mulheres pouco profundas, em cujos rostos formavam-se rugas graças à ânsia de sempre sorrir, para mostrarem-se felizes aos outros; cientistas que elaboravam teorias e escreviam livros para fazerem-se conhecidos; maridos que davam mais importância aos negócios que às próprias esposas, e assim por diante. A vida de Jacinto baseava-se em compromissos sociais com essa gente, para quem conviver com um homem rico como ele era garantia de status.
Eça de Queirós faz descrições minuciosas dos ambientes urbanos, sempre dando um toque de ironia, de modo a deixar clara a inutilidade de tudo aquilo. Zé Fernandes, advindo da serra, em geral não se deixa “contaminar” por toda aquela superficialidade; chega a apaixonar-se por uma moça da cidade, com quem se envolve, até o momento em que ela o deixa por outro homem mais rico – sua frustração o convence ainda mais de que aquela gente não tinha nada de interessante a oferecer. Assim, Zé Fernandes é praticamente a única pessoa que nota a crescente insatisfação de Jacinto. Este inicialmente acreditava que “suma ciência x suma potência = suma felicidade”; tentava a todo custo aplicar esta fórmula em sua vida, e, no entanto, vai se tornando cada vez mais entediado e infeliz. Quando Jacinto tem de voltar para Portugal, para visitar a reconstrução do túmulo de seus antepassados, é tomado por uma espécie de alívio, por poder escapar da cidade.
Não crendo ser capaz de sobreviver sem seus aparatos tecnológico, Jacinto envia tudo o que pode a Tormes, para que lá ficasse tão bem instalado quanto em sua própria casa; e, junto a Zé Fernandes, parte para a serra. Devido a contratempos, quando chegam a Portugal, não têm mais nada: suas malas foram acidentalmente enviadas para a Espanha, e as reformas na casa ainda não estavam acabadas. Tudo o que resta a Jacinto da civilização é a roupa do corpo e sua bengala. Neste ponto, Eça de Queirós utilizou-se de um significado simbólico: Jacinto entra em Portugal “nu”, e essa “nudez” remete a um renascimento – deixou para trás o Jacinto materialista e tem a chance de tornar-se alguém melhor em Portugal. Aos poucos, Jacinto encontra sua utilidade nas serras, casa-se com Joaninha, prima de Zé Fernandes e encontra um equilíbrio entre o campo e a civilização: leva para Tormes somente a parte boa, útil, da tecnologia.
Pode-se dizer que “A Cidade e as Serras” constitui uma apologia à vida no campo e uma caricatura da cidade. A cidade surge como símbolo do progresso, mas também de futilidade e de infelicidade; enquanto as serras representam a naturalidade, a sensibilidade. Mais de um século após sua publicação, a essência do livro ainda pode ser aplicada ao mundo atual – as pessoas esquecem-se de valores fundamentais, como a família e a amizade, em função da tecnologia, e nem por isso são mais felizes; pelo contrário, nota-se hoje uma depressão sem precedentes. Talvez o que falte a esses “Jacintos” seja a sua “Tormes”: o retorno às origens, àquilo que realmente importa.
Eça de Queirós é um dos mais renomados autores portugueses. “A Cidade e as Serras” pertence à sua terceira fase, a da maturidade: como sempre, faz críticas audaciosas e utiliza-se de ironia corrosiva, mas tem um “ar” mais esperançoso, mais otimista. Eça critica para corrigir; espera que, ao entenderem a mensagem, seus leitores voltem-se para uma vida mais natural, mais autêntica. Em suas outras obras, Eça sofre grande influência do autor francês Flaubert, autor de “Madame Bovary”; tal influência pode ser claramente notada em “O Primo Basílio”. Dentre as outras obras-primas do autor português, estão “O Crime do Padre Amaro” e “Os Maias”.


3 comentários:

Adrielio Moresi disse...

EXCELENTE TRABALHO O SEU! ME AJUDOU BASTANTE!

Adrielio Moresi disse...

excelente trabalho! parabens!

Cassia Ramos disse...

Milhões de parabéns! Me ajudou demais, obrigada